A resposta curta é: o DIU com levonorgestrel pode ser considerado uma opção para o controle de sintomas associados à endometriose em pessoas selecionadas, mas sua indicação não é automática e não significa que ele seja superior a todos os outros tratamentos hormonais. O objetivo principal é controlar manifestações como dor e sangramento em determinados contextos; o dispositivo não deve ser apresentado como capaz de eliminar definitivamente a endometriose ou garantir a remissão da doença.
No Brasil, a incorporação do DIU liberador de levonorgestrel para o tratamento de pacientes com endometriose foi formalizada pela Portaria SCTIE/MS nº 41, de 29 de maio de 2025. Posteriormente, o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) de Endometriose foi publicado pela Portaria Conjunta SAES/SAPS/SCTIE/MS nº 54, de 2 de junho de 2026. A incorporação é diferente de uma recomendação individual e não significa que a oferta seja imediata ou uniforme em todos os serviços. Os critérios de utilização e o acompanhamento dependem do PCDT vigente e da organização local da rede de saúde.
O que é o DIU com levonorgestrel
DIU significa dispositivo intrauterino. O modelo com levonorgestrel libera, dentro do útero, um progestagênio — hormônio sintético com efeitos semelhantes aos da progesterona. Ele é conhecido principalmente por sua finalidade contraceptiva, mas também pode influenciar o padrão de sangramento e alguns sintomas ginecológicos.
Na endometriose, o interesse pelo dispositivo está relacionado ao efeito hormonal local e à possibilidade de reduzir o sangramento menstrual e a dor em parte das usuárias. A resposta, porém, não é igual para todas as pessoas. A intensidade da dor pode depender de diferentes mecanismos, incluindo inflamação, aderências, envolvimento de estruturas profundas e condições associadas. Por isso, a melhora de um sintoma não permite concluir, isoladamente, que todas as manifestações da doença estejam controladas.
Qual pode ser a finalidade na endometriose
O tratamento farmacológico da endometriose costuma ter finalidade sintomática: reduzir dor, sangramento ou outros impactos da doença e melhorar a qualidade de vida. A Organização Mundial da Saúde ressalta que não há, atualmente, tratamento farmacológico curativo estabelecido para a endometriose. Mesmo quando há melhora importante, os sintomas podem retornar após a interrupção de uma terapia hormonal, e a evolução clínica pode variar.
O DIU com levonorgestrel pode ser discutido em situações nas quais o controle do sangramento e da dor seja um objetivo relevante. Ele também oferece contracepção, o que pode ser útil para algumas pessoas, mas pode não estar alinhado aos objetivos de quem pretende engravidar no curto prazo. O dispositivo não deve ser confundido com tratamento específico para infertilidade relacionada à endometriose.
A literatura descreve benefícios do tratamento hormonal para a dor associada à endometriose, mas as comparações diretas entre DIU com levonorgestrel, contraceptivos combinados, diferentes progestagênios e medicamentos que atuam no eixo do hormônio liberador de gonadotrofina (GnRH) ainda são limitadas ou heterogêneas. Não há base para afirmar que o DIU seja universalmente “o melhor” tratamento ou que funcione da mesma forma em diferentes apresentações da doença.
Como a decisão costuma ser contextualizada
A avaliação profissional pode considerar vários elementos ao mesmo tempo:
- quais sintomas predominam e quanto interferem na vida cotidiana;
- presença de sangramento uterino aumentado ou irregular;
- histórico clínico e possíveis contraindicações;
- tolerabilidade esperada e preocupação com efeitos adversos;
- necessidade ou desejo de contracepção;
- planos reprodutivos;
- tratamentos utilizados anteriormente e suas respostas;
- possibilidade de acompanhamento na rede de saúde;
- custo, disponibilidade e regras de acesso, especialmente no SUS.
Esses fatores não funcionam como um checklist para autodecisão. Eles ajudam a explicar por que uma opção adequada para uma pessoa pode não ser apropriada para outra. A escolha compartilhada deve incluir informações sobre benefícios esperados, limitações das evidências, efeitos adversos, alternativas e possibilidade de reavaliação.
O que se sabe sobre eficácia
Estudos e diretrizes internacionais reconhecem os progestagênios e outros tratamentos hormonais como opções para a dor associada à endometriose. No entanto, a evidência específica para o DIU com levonorgestrel nem sempre permite separar com precisão seu efeito sobre cada tipo de dor ou compará-lo diretamente com todas as alternativas disponíveis.
Alguns estudos observam melhora da dor e do sangramento em parte das usuárias. Isso não significa que toda pessoa terá resposta, que a dor desaparecerá completamente ou que lesões identificadas em exames necessariamente diminuirão. Dor, extensão da doença e achados de imagem podem evoluir de maneira dissociada.
Também é importante diferenciar três conceitos:
- Eficácia clínica: o quanto uma intervenção pode ajudar em determinado desfecho estudado, como dor ou sangramento.
- Segurança: os riscos e efeitos adversos possíveis, que dependem do perfil da pessoa e do modo de uso.
- Incorporação ao SUS: decisão que envolve evidências, custo-efetividade, impacto orçamentário, alternativas e organização do sistema público.
A incorporação do DIU com levonorgestrel no SUS para a indicação prevista no PCDT não equivale a uma declaração de superioridade clínica sobre todos os demais tratamentos. Da mesma forma, uma tecnologia não incorporada para determinada indicação não é necessariamente ineficaz; a decisão pode refletir critérios econômicos, comparadores e prioridades do sistema.
Alterações de sangramento e outros efeitos possíveis
Alterações do padrão menstrual são uma possibilidade relevante com o DIU com levonorgestrel. Podem ocorrer sangramentos irregulares, escapes ou mudanças progressivas no volume e na frequência das menstruações. A amenorreia — ausência de menstruação — pode ocorrer em algumas pessoas, mas não é obrigatória para que exista algum benefício e não deve ser usada sozinha como medida de sucesso ou fracasso.
Também podem existir desconforto ou cólicas relacionados à inserção, além de eventos associados ao dispositivo ou ao procedimento. Como ocorre com outros medicamentos e métodos hormonais, a percepção de efeitos como alterações de humor, sensibilidade mamária, acne ou mudanças na libido pode variar. A frequência e a relevância desses eventos dependem do produto, do contexto clínico e das informações da bula nacional.
A avaliação profissional é importante diante de dor intensa ou persistente após a inserção, sangramento muito volumoso, febre, mal-estar importante ou outros sintomas inesperados. Esses sinais não permitem concluir uma causa específica por conta própria, mas podem exigir avaliação sem adiamento.
DIU, contracepção e planos de gravidez
O DIU com levonorgestrel é um método contraceptivo. Portanto, durante sua utilização, a possibilidade de engravidar é reduzida. Isso torna essencial diferenciar o objetivo de controlar sintomas do objetivo de buscar uma gestação.
A endometriose pode estar relacionada a dificuldades reprodutivas em algumas pessoas, mas o efeito de um tratamento hormonal sobre a fertilidade individual não pode ser previsto a partir de informações gerais. O DIU não é tratamento para infertilidade e não deve ser descrito como capaz de preservar ou aumentar a fertilidade de todas as usuárias. Planos de gravidez e o momento adequado para discutir estratégias reprodutivas fazem parte da avaliação individualizada.
Como ele se diferencia de outras opções hormonais
Os contraceptivos hormonais combinados associam estrogênio e progestagênio. Já os progestagênios isolados incluem diferentes moléculas e apresentações, com características próprias de eficácia, efeitos adversos, contraindicações e disponibilidade.
No PCDT brasileiro, o desogestrel foi incorporado ao SUS para o tratamento da endometriose conforme o protocolo. Em decisão de 2025, a CONITEC não incorporou o dienogeste nem o acetato de noretisterona de determinada apresentação para essa indicação no SUS. Essas decisões não estabelecem uma hierarquia universal de eficácia entre os medicamentos e podem ser atualizadas.
Agonistas e antagonistas de GnRH são outras classes farmacológicas. Elas interferem no eixo hormonal que regula a produção de estrogênio, podendo reduzir a dor, mas apresentam preocupações específicas, como efeitos relacionados à supressão estrogênica e à saúde óssea. Em geral, são opções que exigem seleção e acompanhamento mais cuidadosos. Informações de bulas estrangeiras não devem ser transpostas automaticamente para o Brasil.
Analgésicos e anti-inflamatórios não esteroides também aparecem em diretrizes como parte do manejo da dor, mas uma revisão Cochrane apontou incerteza importante sobre a eficácia específica dos anti-inflamatórios na dor causada pela endometriose e não demonstrou superioridade clara entre diferentes medicamentos. Isso reforça a necessidade de não transformar uma informação geral em orientação de automedicação.
Limitações da literatura
A pesquisa sobre tratamentos para endometriose apresenta diferenças entre estudos quanto à população incluída, definição de dor, duração do acompanhamento, comparação utilizada e forma de medir qualidade de vida. Muitas comparações são indiretas, e resultados de meta-análises em rede não equivalem automaticamente a ensaios clínicos diretos de alta certeza.
Também permanecem dúvidas sobre quais características predizem melhor resposta ao DIU com levonorgestrel, como comparar seus resultados com diferentes progestagênios e qual estratégia oferece maior benefício para cada padrão de dor. A ausência de resposta não prova que toda terapia hormonal seja ineficaz: sintomas persistentes podem exigir revisão clínica do diagnóstico, de comorbidades, de mecanismos da dor e da necessidade de abordagem multidisciplinar.
O tratamento medicamentoso não deve adiar indefinidamente a avaliação de sintomas persistentes, suspeita de acometimento profundo, possível comprometimento de órgãos, efeitos adversos relevantes ou impacto reprodutivo. Diagnóstico e tratamento são temas diferentes e devem ser discutidos em suas próprias páginas e, sobretudo, em consulta com profissional habilitado.
Em resumo
O DIU com levonorgestrel é uma tecnologia hormonal que pode ser considerada no controle de sintomas da endometriose em contextos selecionados. Sua incorporação para tratamento de pacientes com endometriose foi formalizada no SUS em 2025, e os critérios constam do PCDT vigente. Essa informação não substitui a avaliação individual nem transforma o dispositivo em opção obrigatória.
As evidências sugerem possível benefício para dor e sangramento em parte das usuárias, mas não sustentam promessa de cura, superioridade universal ou resultado previsível. Informações sobre contraindicações, inserção, efeitos adversos, acompanhamento e acesso devem ser verificadas com profissional de saúde e nas normas brasileiras atualizadas.