A ciência ainda não identificou uma causa única capaz de explicar todos os casos de endometriose. O entendimento mais aceito atualmente é o de uma condição complexa e multifatorial: diferentes mecanismos podem participar do surgimento, da permanência e da progressão das lesões, com combinações que provavelmente variam entre pessoas e entre fenótipos da doença. O Ministério da Saúde reconhece que as causas permanecem incompletamente conhecidas e cita hipóteses envolvendo fatores genéticos, hormonais e imunológicos, além da menstruação retrógrada. (gov.br)
Isso significa que a pesquisa sobre as origens da endometriose não procura apenas uma resposta para a pergunta “qual é a causa?”. Ela também investiga outras questões: por que algumas células semelhantes às do endométrio conseguem sobreviver fora do útero; por que determinadas lesões se fixam em certos tecidos; como ocorre a inflamação; por que a dor e a extensão das lesões nem sempre caminham juntas; e quais fatores podem influenciar a resposta aos tratamentos.
O que significa investigar a origem de uma doença
Em pesquisa biomédica, “origem” pode se referir a etapas diferentes. Uma delas é a suscetibilidade, isto é, características que podem aumentar a probabilidade de uma condição se desenvolver. Outra é a iniciação, relacionada aos primeiros eventos celulares que dão origem a uma lesão. Há ainda a manutenção, que envolve a capacidade de o tecido permanecer vivo, formar novos vasos sanguíneos e interagir com o organismo, e a progressão, que diz respeito a mudanças na localização, profundidade, inflamação ou impacto clínico.
Essas etapas não são necessariamente explicadas pelo mesmo mecanismo. Uma alteração genética pode influenciar a suscetibilidade, enquanto fatores hormonais e imunológicos podem participar da manutenção de uma lesão. Essa é uma das razões pelas quais modelos muito simples — por exemplo, a ideia de que toda endometriose teria uma única origem — não abrangem a diversidade observada na literatura.
As teorias clássicas continuam relevantes, mas não explicam tudo
A hipótese da menstruação retrógrada descreve o refluxo de parte do sangue menstrual pelas tubas uterinas em direção à cavidade pélvica. Células semelhantes às do endométrio poderiam alcançar outras superfícies e, em determinadas circunstâncias, sobreviver e se desenvolver. Essa hipótese ajuda a explicar alguns aspectos da doença, mas não esclarece sozinha por que muitas pessoas podem apresentar menstruação retrógrada sem desenvolver endometriose, nem por que existem lesões em localizações que não são facilmente explicadas por esse mecanismo.
Outras hipóteses estudadas incluem a metaplasia, processo no qual um tipo de célula poderia adquirir características semelhantes às do endométrio; a disseminação de células por vasos sanguíneos ou linfáticos; a participação de células progenitoras, capazes de originar diferentes tipos celulares; e a chamada seleção clonal, em que subgrupos de células com determinadas vantagens de sobrevivência se expandiriam.
A literatura contemporânea tende a tratar essas explicações como modelos que podem ser complementares, e não necessariamente excludentes. Ainda não está definido se uma teoria explica a doença como um todo ou se diferentes mecanismos predominam em determinados fenótipos, como a endometriose superficial, ovariana ou profunda. (gov.br)
Genética: predisposição, não destino
Estudos genéticos procuram identificar variantes do DNA associadas à endometriose. Em 2023, uma grande análise de associação genômica ampla — método que compara milhares ou milhões de variantes genéticas entre grupos — identificou 42 regiões do genoma com sinais estatisticamente significativos de associação. Os autores também observaram relações genéticas com algumas condições dolorosas e inflamatórias. (nature.com)
Esses resultados apoiam a existência de um componente genético poligênico. O termo significa que muitos elementos genéticos, geralmente com efeitos pequenos, podem contribuir conjuntamente para a suscetibilidade. Não se trata, portanto, de um único “gene da endometriose”.
Há uma diferença importante entre associação e causalidade. Encontrar uma variante mais frequente em um grupo com endometriose não prova que ela, isoladamente, cause a doença. Também não permite prever com segurança quem desenvolverá endometriose, qual será a gravidade ou como ocorrerá a resposta a uma intervenção.
A própria análise genética de larga escala explicou apenas uma parte limitada da variação observada e incluiu principalmente participantes de ascendência europeia e do leste asiático. Isso limita a generalização para outras populações e reforça a necessidade de estudos mais diversos. Atualmente, os achados genéticos têm relevância sobretudo para compreender mecanismos e formular novas hipóteses, não para confirmar ou excluir endometriose na prática clínica. (nature.com)
Hormônios: um ambiente biológico permissivo
A endometriose é influenciada pelo ambiente hormonal do ciclo reprodutivo, especialmente pela ação dos estrogênios. A pesquisa investiga como células e lesões podem responder de modo diferente aos hormônios em comparação com o endométrio localizado dentro do útero.
Uma linha de investigação analisa alterações em receptores hormonais, enzimas envolvidas na produção e no metabolismo dos esteroides e mecanismos que afetam a sensibilidade dos tecidos. O objetivo não é apenas verificar se existe hormônio em determinado local, mas compreender como a sinalização hormonal interage com inflamação, crescimento celular, formação de vasos e resposta imune.
Esse campo também ajuda a explicar por que a endometriose pode apresentar comportamentos distintos. Ainda assim, uma alteração hormonal encontrada em uma lesão não deve ser interpretada automaticamente como a causa inicial da doença. Ela pode ser parte da manutenção da lesão, consequência do microambiente local ou elemento de um ciclo de retroalimentação.
Imunidade e inflamação: causa, consequência ou circuito?
O microambiente é o conjunto de células, moléculas, vasos e condições químicas que envolve um tecido. Na endometriose, pesquisadores estudam o microambiente da cavidade pélvica e das próprias lesões, com atenção para células de defesa e mediadores inflamatórios.
Entre os alvos de investigação estão macrófagos, células NK, células T reguladoras, células Th17 e diferentes citocinas — proteínas usadas pelas células para comunicação. A hipótese geral é que alterações na resposta imune possam dificultar a eliminação de células deslocadas, favorecer a inflamação e contribuir para a formação de novos vasos sanguíneos. (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov)
A principal limitação é que muitos achados imunológicos vêm de modelos animais, experimentos com células ou amostras humanas pequenas. Por isso, identificar uma alteração imunológica não demonstra, por si só, que uma imunoterapia será eficaz em pessoas. Também permanece em debate se a disfunção imune inicia o processo, surge depois da presença das lesões ou participa de um circuito contínuo entre inflamação e sobrevivência celular.
Epigenética: quando a regulação dos genes muda
Epigenética é o estudo de alterações que regulam a atividade dos genes sem modificar necessariamente a sequência do DNA. Entre os mecanismos investigados estão a metilação do DNA e as modificações de histonas, proteínas associadas ao material genético.
Revisões sistemáticas recentes encontraram estudos relacionando alterações epigenéticas a vias de proliferação celular, apoptose — morte celular programada —, inflamação e resposta hormonal. Entretanto, os resultados variam conforme o tecido analisado, a fase do ciclo menstrual, o fenótipo da endometriose, a técnica laboratorial e os critérios usados para formar os grupos de comparação. (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov)
Uma alteração epigenética observada em pessoas com endometriose pode ser um fator envolvido na doença, uma consequência do processo inflamatório ou um marcador associado a determinado tecido. Para distinguir essas possibilidades, são necessários estudos longitudinais, amostras maiores, protocolos padronizados e validação independente.
Por esse motivo, biomarcadores epigenéticos continuam sendo uma linha promissora de pesquisa, mas não constituem, até o momento, exames de uso rotineiro capazes de confirmar ou excluir a endometriose.
Microbiota: uma associação que ainda precisa de explicação
A microbiota é o conjunto de microrganismos que vive em determinado ambiente do corpo. Pesquisas analisam a microbiota intestinal, vaginal, cervical, uterina, peritoneal e a encontrada em lesões.
Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2025 encontrou diferenças em alguns indicadores de diversidade da microbiota intestinal entre grupos com e sem endometriose. O resultado apoia a existência de uma associação, mas não prova que alterações microbianas causem a doença. Dieta, medicamentos, uso prévio de antibióticos, idade, localização geográfica, sintomas intestinais e outros fatores podem influenciar os achados. (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov)
Uma revisão de escopo publicada em Human Reproduction Update destacou que ainda não existe um perfil específico e reproduzível de disbiose — termo usado para descrever uma alteração na composição ou no equilíbrio microbiano — que possa ser aplicado universalmente à endometriose. Diferenças entre amostras, métodos de sequenciamento e critérios de análise dificultam a comparação entre estudos. (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov)
Assim, resultados sobre microbiota não sustentam, por si só, dietas específicas, probióticos, antibióticos ou outras intervenções microbiômicas como tratamentos comprovados para endometriose. A pesquisa ainda precisa esclarecer temporalidade, causalidade e relevância clínica.
Do mecanismo biológico ao biomarcador
Um biomarcador é uma característica biológica mensurável que pode, em determinadas circunstâncias, ajudar a identificar uma doença, estimar um risco ou acompanhar uma resposta. Na endometriose, os estudos investigam proteínas, microRNAs, padrões de metilação, metabólitos e outras assinaturas em sangue, urina, saliva, fezes, muco cervical, sangue menstrual, endométrio e líquido peritoneal.
Uma revisão sistemática que reuniu estudos de diferentes tecidos identificou grande número de candidatos, mas também mostrou baixa repetição entre coortes. De centenas de trabalhos avaliados, poucos marcadores apareceram de maneira consistente em mais de um compartimento biológico e por equipes independentes. Os autores ressaltaram que o fenótipo, a fase do ciclo, os tratamentos e os sintomas são frequentemente controlados de forma desigual. (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov)
Esse é um ponto central: um marcador pode apresentar bom desempenho em uma população selecionada e ainda falhar quando avaliado em pessoas com sintomas variados, outras doenças ou acesso desigual a recursos. Antes de qualquer aplicação clínica, são necessárias validação externa, comparação com métodos já disponíveis, avaliação de custo, segurança, reprodutibilidade e impacto real nas decisões de cuidado.
Imagem e inteligência artificial: potencial sem aplicação automática
A ultrassonografia transvaginal especializada e a ressonância magnética podem contribuir para identificar e mapear determinadas formas de endometriose, especialmente quando realizadas com protocolos adequados e por equipes experientes. A literatura também reconhece limitações, incluindo a menor sensibilidade para algumas lesões superficiais e a influência do equipamento, do protocolo e da experiência do examinador. Um resultado negativo não exclui necessariamente todos os tipos de endometriose. (gov.br)
A inteligência artificial pode ser usada para reconhecer padrões em imagens. Revisões recentes descrevem resultados promissores em estudos de ultrassonografia, mas a quantidade de trabalhos ainda é pequena e heterogênea. Métricas de acurácia obtidas em bases retrospectivas podem não se repetir em hospitais diferentes, com aparelhos distintos ou em populações não selecionadas. Validação externa, transparência, interpretabilidade, segurança e demonstração de benefício clínico permanecem necessárias. (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov)
Por isso, uma ferramenta de inteligência artificial em pesquisa não deve ser apresentada como substituta da avaliação clínica ou de profissionais habilitados.
Como diferenciar descoberta de evidência aplicável
A fase de uma pesquisa ajuda a entender o que seus resultados podem — e não podem — demonstrar:
- Estudos celulares e modelos animais: exploram mecanismos e testam hipóteses iniciais, mas não comprovam eficácia ou segurança em seres humanos.
- Estudos observacionais: identificam associações em grupos, sem necessariamente estabelecer causa e efeito.
- Estudos-piloto: avaliam viabilidade e sinais preliminares, geralmente com amostras pequenas.
- Ensaios clínicos randomizados: comparam intervenções sob condições planejadas, mas ainda precisam ser avaliados quanto a tamanho amostral, desfechos, perdas de seguimento, segurança e relevância clínica.
- Revisões sistemáticas e meta-análises: sintetizam estudos disponíveis, mas a conclusão depende da qualidade, da heterogeneidade e do risco de viés dos trabalhos incluídos.
- Avaliação regulatória e incorporação: são etapas diferentes da pesquisa e determinam se uma tecnologia pode ser autorizada, recomendada ou disponibilizada em determinado sistema de saúde.
A presença de um estudo no ClinicalTrials.gov indica que existe um registro de pesquisa, não que a intervenção seja eficaz, segura, aprovada ou disponível. É necessário verificar desenho, fase, recrutamento, desfechos, resultados publicados e eventuais alterações do registro. (gov.br)
No Brasil, o PCDT da endometriose e as decisões da CONITEC são referências centrais para compreender o que está recomendado ou disponibilizado no SUS. A página oficial da CONITEC registra uma alteração do anexo do PCDT em 20 de agosto de 2026, associada à Portaria Conjunta SAES/SAPS/SCTIE/MS nº 54, de 2 de junho de 2026, publicada em 22 de julho de 2026. Documentos preliminares de consulta pública não devem ser confundidos com a versão vigente. (gov.br)
O que a ciência já permite afirmar
A evidência atual sustenta algumas conclusões relativamente consistentes:
- Não existe uma causa única comprovada para todos os casos de endometriose.
- A doença provavelmente resulta da interação entre fatores genéticos, hormonais, imunológicos, epigenéticos e ambientais.
- A genética contribui para a suscetibilidade, mas não determina individualmente quem terá a doença.
- Epigenética, imunidade e microbiota são áreas relevantes de investigação, ainda sem comprovação de que expliquem sozinhas a origem da endometriose.
- Biomarcadores não invasivos e inteligência artificial são promissores, mas ainda exigem validação antes de substituir ou modificar rotinas clínicas.
- Achados de laboratório, estudos isolados ou manchetes sobre “cura” não equivalem a tratamentos comprovados.
A principal mensagem é de prudência: a pesquisa está avançando, mas avanço científico não significa aplicação clínica imediata. Compreender a origem da endometriose exige integrar diferentes níveis de evidência e reconhecer que resultados interessantes podem ser apenas o início de uma investigação, não sua conclusão.