Início › Tipos e localizações › Endometriose extrapélvica e localizações raras
Tipos e localizações · conteúdo informativo

Endometriose extrapélvica e localizações raras

A endometriose ocorre predominantemente na pelve, mas a literatura descreve implantes em regiões abdominais, torácicas, na parede abdominal, em nervos e em outros locais incomuns. A anatomia ajuda a orientar a investigação, mas a localização de um sintoma, isoladamente, não confirma a doença.

Limite deste conteúdo: Este conteúdo é exclusivamente informativo e educacional. Não substitui consulta, avaliação individual, diagnóstico ou tratamento realizado por profissional habilitado. Sintomas, sinais ou resultados de exames não permitem autodiagnóstico. A definição diagnóstica e a interpretação do conjunto clínico devem ser realizadas por profissional de saúde habilitado, dentro de sua competência.

O que significa endometriose extrapélvica?

Endometriose é uma doença inflamatória crônica na qual um tecido semelhante ao endométrio — o revestimento interno do útero — está presente fora da cavidade uterina. Ela ocorre principalmente na pelve, mas também pode ser descrita em estruturas do abdome, do tórax, da parede abdominal, da região umbilical, de músculos, nervos e outros tecidos. Quando a localização está fora da pelve, costuma-se usar o termo endometriose extrapélvica .

A expressão “localização rara” se refere à menor frequência ou à apresentação incomum, não necessariamente à intensidade dos sintomas. Uma lesão fora da pelve pode produzir manifestações relacionadas ao órgão ou tecido envolvido, mas sintomas parecidos também podem ocorrer em diversas outras condições. Por isso, dor em uma região específica — inclusive quando aparece de forma cíclica — não permite concluir, sozinha, que exista endometriose naquele local.

A evidência sobre essas apresentações é mais limitada do que a disponível para a endometriose pélvica. Grande parte dos estudos reúne relatos de caso, séries retrospectivas e grupos pequenos, o que dificulta estimar a frequência real, comparar tratamentos e estabelecer regras aplicáveis a todas as pessoas .

Uma classificação útil, mas incompleta

Para fins didáticos, a endometriose costuma ser descrita em três fenótipos clínico-anatômicos principais:

  • superficial peritoneal, quando as lesões estão sobre o peritônio, uma membrana que reveste parte da cavidade abdominal e dos órgãos pélvicos;
  • ovariana, que inclui o endometrioma, um cisto associado à endometriose no ovário;
  • profunda, quando há lesões que se estendem para além da superfície e podem comprometer estruturas como vagina, região atrás do colo do útero, ligamentos uterossacros, intestino, bexiga ou ureteres .

Essa divisão não significa que existam apenas três “tipos” de endometriose. Ela organiza apresentações frequentes, mas não substitui a descrição precisa da anatomia. Uma pessoa pode apresentar mais de um fenótipo, e a classificação anatômica não prevê automaticamente a intensidade da dor, o impacto na fertilidade, o risco de complicações ou a necessidade de tratamento.

Sistemas como rASRM, Enzian, #Enzian e AAGL podem ser utilizados para registrar extensão, profundidade, aderências e órgãos envolvidos. Eles foram desenvolvidos com finalidades diferentes e podem ser complementares. Nenhum estágio ou escore isolado representa adequadamente todos os aspectos da doença, especialmente dor, qualidade de vida e função reprodutiva .

Onde a endometriose extrapélvica pode ocorrer?

Parede abdominal e cicatrizes cirúrgicas

A parede abdominal inclui pele, tecido subcutâneo, músculos, fáscias e outras estruturas que formam o revestimento e o suporte do abdome. A endometriose pode ser descrita nessa região, inclusive em cicatrizes de cesariana ou de outras cirurgias pélvicas. Também há relatos de ocorrência espontânea, sem uma cirurgia anterior, e de lesões próximas ao umbigo .

Entre as manifestações descritas estão nódulo ou espessamento localizado, sensibilidade e dor que pode variar ao longo do ciclo menstrual. Algumas lesões podem ficar mais perceptíveis em determinados períodos. Esses achados, entretanto, não são exclusivos da endometriose. Hérnias, granulomas, abscessos, tumores, alterações cicatriciais e outras condições também podem produzir massa ou dor na parede abdominal.

A associação entre uma cicatriz e sintomas cíclicos pode ser uma informação relevante para a avaliação clínica, mas não transforma a cicatriz em diagnóstico. O exame físico e, quando indicado no contexto assistencial, métodos de imagem podem ajudar a caracterizar profundidade e relação com músculos ou outras estruturas. A revisão disponível sobre o tema ressalta que a qualidade da evidência é limitada e que o planejamento depende da anatomia de cada lesão .

Região umbilical

A endometriose umbilical é uma apresentação incomum. Pode surgir como extensão de doença pélvica ou ocorrer como lesão primária, sem que uma cirurgia prévia explique sua presença. Dor, alteração de volume, sensibilidade ou mudanças cíclicas na região são descritas na literatura, mas também podem aparecer em doenças dermatológicas, hérnias e outras alterações locais.

A localização umbilical não permite inferir, por si só, a existência ou a extensão de endometriose em outros órgãos. A avaliação deve considerar a história clínica, o exame da região e as possibilidades alternativas, sem transformar uma manifestação isolada em conclusão diagnóstica.

Intestino e apêndice

A endometriose intestinal faz parte das apresentações profundas. Ela ocorre com maior frequência em segmentos pélvicos, especialmente no reto e no sigmoide, embora outros segmentos possam ser envolvidos. A proximidade com o útero, os ovários, a vagina e os ligamentos uterossacros explica por que a descrição topográfica é importante .

Podem ser descritos dor pélvica ou abdominal relacionada ao ciclo, alteração do hábito intestinal, dor à evacuação e, em algumas situações, sangramento retal cíclico. Esses sintomas não são específicos: síndrome do intestino irritável, doenças inflamatórias, infecções, hemorroidas e outras condições podem produzir manifestações semelhantes. Além disso, nem toda lesão intestinal causa obstrução ou sintomas intensos.

O apêndice também pode estar envolvido, embora essa seja uma apresentação incomum. A literatura não sustenta a interpretação de que qualquer dor no lado direito do abdome, ou qualquer alteração apendicular, corresponda à endometriose. Quando há suspeita de comprometimento intestinal ou apendicular, a localização, a profundidade, a extensão e a relação com a luz intestinal precisam ser analisadas em conjunto.

Bexiga, ureteres e trato urinário superior

A endometriose urinária pode envolver a bexiga, os ureteres — tubos que transportam a urina dos rins até a bexiga — e, menos frequentemente, estruturas do trato urinário superior. Sintomas descritos incluem dor ao urinar, aumento da frequência urinária, dor pélvica e, em alguns casos, sangue na urina com padrão cíclico. Também pode haver doença sem sintomas urinários evidentes .

O comprometimento ureteral merece atenção porque uma lesão pode reduzir a passagem da urina e afetar o rim, mesmo quando os sintomas não parecem proporcionais. Hidroureter, que é a dilatação do ureter, e hidronefrose, que é a dilatação do sistema coletor do rim, não devem ser tratados como simples descrições anatômicas sem relevância. Quando há suspeita de obstrução, a avaliação profissional pode ser necessária com prioridade, conforme o quadro clínico.

A ultrassonografia transvaginal especializada e a ressonância magnética podem contribuir para a avaliação do trato urinário, mas seu desempenho depende do protocolo, do equipamento, da experiência da equipe e da região examinada . Um resultado sem alterações visíveis não exclui completamente lesões pequenas ou superficiais.

Diafragma e tórax

A endometriose diafragmática envolve o diafragma, músculo que separa o tórax do abdome. Em apresentações torácicas, podem ser comprometidas a pleura, membrana que reveste o pulmão e a parede interna do tórax, ou o próprio tecido pulmonar. A chamada síndrome da endometriose torácica é incomum e reúne manifestações que podem incluir dor torácica, pneumotórax — entrada de ar no espaço entre o pulmão e a parede torácica —, hemotórax — presença de sangue nesse espaço — e hemoptise, que é a eliminação de sangue pelas vias respiratórias .

Um aspecto frequentemente discutido é a relação temporal com o ciclo menstrual, chamada de padrão catamenial. A literatura descreve, por exemplo, sintomas torácicos que se repetem em períodos próximos à menstruação. Esse padrão pode ser uma pista para a avaliação, mas não é exclusivo da endometriose e não deve ser usado isoladamente para concluir a causa de dor, falta de ar ou tosse com sangue.

Dor torácica importante, falta de ar súbita, desmaio, coloração arroxeada ou tosse com sangue são sinais que podem ocorrer em diversas emergências médicas. Nesses contextos, pode ser necessária avaliação profissional imediata, independentemente da relação — ou não — com o ciclo menstrual.

A investigação de uma possível apresentação torácica pode envolver integração entre ginecologia, pneumologia, cirurgia torácica e radiologia, conforme a situação. A ausência de uma alteração em determinado exame também não elimina todas as possibilidades, pois a sensibilidade varia segundo o local e a técnica utilizada .

Nervos, músculos e outros locais

A revisão sistemática sobre endometriose extrapélvica reúne descrições de comprometimento muscular, nervoso, da região inguinal, do trato gastrointestinal fora da pelve, do diafragma e de outros locais . Quando nervos ou músculos estão envolvidos, podem ser relatadas dor localizada, sensação de choque, formigamento, fraqueza ou limitação funcional. Esses sintomas têm amplo diagnóstico diferencial e não permitem associar uma alteração neurológica específica à endometriose sem avaliação apropriada.

A raridade dessas apresentações faz com que o conhecimento seja construído, em grande parte, a partir de casos individuais. Assim, mecanismos propostos para explicar como a doença alcançaria determinados locais permanecem objeto de investigação e não devem ser apresentados como fatos definitivamente comprovados.

A localização da dor indica onde está a doença?

Não necessariamente. A dor relacionada à endometriose pode resultar de inflamação, aderências, envolvimento de nervos, contrações musculares, alterações na função de órgãos ou sensibilização do sistema nervoso. Além disso, a intensidade da dor não se correlaciona de maneira confiável com a extensão anatômica em todas as pessoas .

Por isso, uma doença aparentemente extensa pode coexistir com poucos sintomas, enquanto lesões menores podem estar associadas a dor relevante. O inverso também é possível: sintomas intensos podem ter causas diferentes da endometriose ou envolver mecanismos que não aparecem claramente em exames de imagem.

O padrão temporal dos sintomas — por exemplo, uma repetição próxima à menstruação — pode integrar a história clínica, mas não é uma prova. A avaliação costuma considerar sintomas, exame físico, antecedentes cirúrgicos, função intestinal e urinária, saúde sexual, exames de imagem e outras hipóteses. Nas apresentações extrapélvicas, a necessidade de excluir doenças do órgão envolvido é especialmente importante.

Como a avaliação pode ser organizada?

A investigação depende da região suspeita e da pergunta clínica. Na doença profunda pélvica, a ultrassonografia transvaginal especializada e a ressonância magnética podem contribuir para mapear lesões, aderências e comprometimento de órgãos . O valor desses exames varia conforme a experiência dos profissionais, o protocolo e a capacidade de visualizar determinada localização.

O resultado de um exame não deve ser interpretado isoladamente. Um exame de imagem pode ajudar a localizar e dimensionar uma lesão, mas não determina sozinho a intensidade dos sintomas, o prognóstico ou a necessidade de cirurgia. Da mesma forma, um exame sem alterações pode não detectar doença superficial, pequena ou situada em região de difícil visualização.

O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde organiza aspectos do cuidado no SUS, enquanto diretrizes internacionais e recomendações de sociedades científicas detalham situações específicas. Para doença profunda, intestinal, urinária, torácica ou de outra localização incomum, pode ser relevante a articulação entre diferentes áreas, de acordo com a anatomia e as funções envolvidas .

Tratamento: por que não existe uma regra baseada apenas no local?

A localização anatômica é importante, mas não determina sozinha a conduta. A literatura e as diretrizes descrevem que decisões podem considerar sintomas, comprometimento funcional, extensão da doença, desejo reprodutivo, idade, reserva ovariana, riscos de procedimentos, tratamentos prévios e preferências da pessoa .

Em algumas situações, o cuidado pode envolver tratamento clínico, acompanhamento, controle de sintomas ou avaliação cirúrgica. A presença de endometrioma, lesão intestinal, alteração ureteral ou doença profunda não torna automaticamente uma cirurgia obrigatória. Por outro lado, suspeita de obstrução urinária, doença intestinal obstrutiva ou comprometimento de órgãos pode exigir avaliação especializada para compreender riscos e possibilidades.

Quando uma intervenção é considerada, o planejamento pode incluir profissionais de diferentes áreas, especialmente se houver envolvimento intestinal, urinário, torácico ou de estruturas profundas. A discussão deve abranger potenciais benefícios, riscos, impacto sobre a função do órgão, possibilidade de recorrência e alternativas. Não há uma técnica cirúrgica universal para todas as localizações raras, e a evidência disponível é desigual.

A endometriose é uma condição crônica. Mesmo quando há melhora dos sintomas ou tratamento de uma lesão, isso não deve ser confundido com garantia de cura definitiva ou ausência de recorrência.

O que a ciência ainda não consegue responder bem?

As localizações raras são menos estudadas do que as formas pélvicas. Permanecem limitações importantes sobre frequência populacional, mecanismos de surgimento, relação entre doença pélvica e extrapélvica, desempenho de exames em cada órgão e comparação entre estratégias terapêuticas .

Também não existe um sistema único de classificação capaz de resumir, ao mesmo tempo, anatomia, dor, fertilidade, qualidade de vida e risco funcional. Por isso, uma descrição detalhada da localização e da extensão costuma ser mais informativa do que um estágio global isolado.

A principal mensagem é que a endometriose extrapélvica existe, mas não deve ser usada como explicação automática para qualquer sintoma fora da pelve. A avaliação responsável combina anatomia, temporalidade dos sintomas, exame clínico, métodos de imagem quando pertinentes e investigação de outras causas.

Importante: Este conteúdo é exclusivamente informativo e educacional. Não substitui consulta, avaliação individual, diagnóstico ou tratamento realizado por profissional habilitado. Sintomas, sinais ou resultados de exames não permitem autodiagnóstico. A definição diagnóstica e a interpretação do conjunto clínico devem ser realizadas por profissional de saúde habilitado, dentro de sua competência. Em caso de dúvida sobre sintomas, exames, medicamentos, alimentação, tratamento ou qualquer decisão relacionada à saúde, procure orientação de profissional habilitado.

Referências e fontes

Referências apresentadas em formato bibliográfico padronizado segundo convenções da ABNT para documentos online, com link para a fonte consultada e data de acesso.

  1. 1
    BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Endometriose. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/pcdt/e/pcdt-endometriose/view. Acesso em: 1 set. 2026.
  2. 2
    WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Endometriosis. 2025. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/endometriosis. Acesso em: 1 set. 2026.
  3. 3
    EUROPEAN SOCIETY OF HUMAN REPRODUCTION AND EMBRYOLOGY (ESHRE). ESHRE guideline: endometriosis. 2022. Disponível em: https://www.eshre.eu/Guidelines-and-Legal/Guidelines/Endometriosis-guideline.aspx. Acesso em: 1 set. 2026.
  4. 4
    FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA (FEBRASGO). Endometriose e dor: aspectos fisiopatológicos e abordagem multidisciplinar. 2025. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br/media/k2/attachments/FeminaZ06Z2025.pdf. Acesso em: 1 set. 2026.
  5. 5
    INTERNATIONAL DEEP ENDOMETRIOSIS ANALYSIS GROUP / ULTRASOUND IN OBSTETRICS & GYNECOLOGY. Systematic approach to sonographic evaluation of the pelvis in women with suspected endometriosis, including terms, definitions and measurements: a consensus opinion from the International Deep Endometriosis Analysis (IDEA) group. 2016. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27349699/. Acesso em: 1 set. 2026.
  6. 6
    World Endometriosis Society / Human Reproduction. The revised Enzian classification: a comprehensive non-invasive and surgical description system for endometriosis. 2017. Disponível em: https://academic.oup.com/humrep/article/32/2/315/2631390. Acesso em: 1 set. 2026.
  7. 7
    EUROPEAN SOCIETY OF HUMAN REPRODUCTION AND EMBRYOLOGY (ESHRE). Recommendations for the surgical treatment of endometriosis Part 2: deep endometriosis. 2020. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32322824/. Acesso em: 1 set. 2026.
  8. 8
    EUROPEAN SOCIETY OF HUMAN REPRODUCTION AND EMBRYOLOGY (ESHRE). Non-invasive imaging techniques for diagnosis of pelvic deep endometriosis and endometriosis classification systems: an International Consensus Statement. 2024. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11366111/. Acesso em: 1 set. 2026.
  9. 9
    Current Opinion in Obstetrics & Gynecology. Diaphragmatic endometriosis: current perspectives and management. 2019. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31618674/. Acesso em: 1 set. 2026.
  10. 10
    EUROPEAN SOCIETY OF HUMAN REPRODUCTION AND EMBRYOLOGY (ESHRE). ESHRE guideline: endometriosis — versão em PDF, seção sobre infertilidade associada à endometriose e cirurgia. 2022. Disponível em: https://www.eshre.eu/-/media/sitecore-files/Guidelines/Endometriosis/ESHRE-GUIDELINE-ENDOMETRIOSIS-2022_1.pdf. Acesso em: 1 set. 2026.
  11. 11
    SPRINGER NATURE. S00404 026 08553 6. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s00404-026-08553-6. Acesso em: 1 set. 2026.
  12. 12
    Obstetrical & Gynecological Survey. Diagnosis and Management of Abdominal Wall Endometriosis: A Systematic Review and Clinical Recommendations. 2017. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28218772/. Acesso em: 1 set. 2026.