A adenomiose é uma condição ginecológica caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio — a camada que reveste internamente o útero — no miométrio, sua camada muscular. Em outras palavras, o tecido não está apenas no revestimento interno uterino: ele aparece em áreas da musculatura do útero, podendo acompanhar alterações na estrutura desse órgão.
A definição parece próxima da endometriose, mas os termos não são sinônimos. Na endometriose, o tecido semelhante ao endométrio está fora da cavidade uterina, podendo envolver o peritônio, os ovários ou outros órgãos. Na adenomiose, a alteração está dentro do miométrio. As duas condições podem coexistir e compartilhar manifestações, o que torna importante manter a distinção conceitual.
O que significam endométrio, miométrio e adenomiose?
O endométrio é o tecido que reveste a parte interna do útero e passa por modificações ao longo do ciclo menstrual. O miométrio é a camada muscular situada logo abaixo do endométrio; ele participa das contrações uterinas e compõe a maior parte da parede do útero.
Na adenomiose, tecido semelhante ao endométrio é identificado no interior do miométrio. A expressão “tecido semelhante” é importante: a nomenclatura não significa necessariamente que se trate de endométrio normal simplesmente deslocado. A condição envolve alterações teciduais e morfológicas que podem ser observadas por métodos de imagem ou, em determinadas situações, estudadas em material cirúrgico.
A adenomiose pode ser descrita como focal, quando predomina em uma região, ou difusa, quando envolve uma área mais ampla do miométrio. Também podem ser utilizados termos relacionados à distribuição ou à profundidade dos achados. Essas descrições ajudam a comunicar a aparência e a localização da alteração, mas não funcionam, isoladamente, como uma previsão da intensidade dos sintomas ou do impacto na vida de cada pessoa.
Adenomiose e endometriose são a mesma coisa?
Não. A diferença principal é anatômica:
- Adenomiose: tecido semelhante ao endométrio no miométrio, dentro da parede muscular do útero.
- Endometriose: tecido semelhante ao endométrio fora da cavidade uterina, em locais como o peritônio, os ovários ou outras estruturas pélvicas.
O peritônio é uma membrana que reveste a cavidade abdominal e recobre parte dos órgãos. Ele aparece com frequência em textos sobre endometriose porque pode ser um dos locais de implantes, inflamação e aderências relacionados à doença.
A semelhança entre os nomes decorre, em parte, da referência ao tecido semelhante ao endométrio. Porém, a localização, a forma de avaliação e a descrição clínica podem ser diferentes. Também é possível que adenomiose e endometriose estejam presentes ao mesmo tempo. Por isso, a identificação de uma delas não deve ser automaticamente interpretada como confirmação da outra.
A intensidade da dor, quando existe, também não permite deduzir sozinha a extensão anatômica da alteração. Na endometriose, por exemplo, a literatura descreve uma relação imperfeita entre sintomas e extensão das lesões; essa cautela também é relevante ao explicar condições ginecológicas que podem compartilhar manifestações.
Quais manifestações podem estar associadas à adenomiose?
A adenomiose pode ser identificada em pessoas com sintomas ginecológicos, mas também pode aparecer em avaliações realizadas por outros motivos. A presença de um achado compatível em exame não informa, por si só, quanto ele contribui para eventuais sintomas.
Na literatura ginecológica, a condição é frequentemente discutida no contexto de alterações menstruais e dor pélvica. Entre as manifestações que podem motivar uma avaliação estão:
- cólicas menstruais ou dor relacionada ao período menstrual;
- sangramento menstrual intenso, entendido também pelo impacto que provoca na vida cotidiana;
- dor pélvica persistente ou recorrente;
- aumento ou alteração da forma do útero descrita em exame de imagem.
Essas manifestações não são exclusivas da adenomiose. Cólicas, sangramento intenso e dor pélvica podem ter diversas causas, e a intensidade de um sintoma não confirma uma condição específica. Da mesma forma, a ausência de sintomas marcantes não permite excluir um achado observado em exame.
O termo sangramento menstrual intenso é preferido em muitos documentos atuais porque considera não apenas uma estimativa de volume, mas principalmente a interferência na qualidade de vida física, social, emocional ou material. “Menorragia” é uma expressão tradicional que ainda aparece em textos e registros, mas não deve ser tratada como sinônimo obrigatório em todos os contextos.
Quando o sangramento é muito volumoso ou se acompanha de tontura, desmaio, fraqueza importante, falta de ar ou piora súbita do estado geral, pode ser necessária avaliação profissional em tempo oportuno. Esses sinais não identificam a causa do sangramento, mas justificam atenção à intensidade do quadro.
Como a adenomiose pode aparecer nos exames de imagem?
A ultrassonografia é um dos métodos utilizados na avaliação da morfologia uterina. No contexto da adenomiose, o consenso MUSA — sigla em inglês para Morphological Uterus Sonographic Assessment — organizou características ultrassonográficas que podem ser classificadas como sinais diretos ou indiretos.
Entre os achados descritos nesse consenso estão:
- cistos no miométrio;
- ilhas hiperecogênicas, isto é, áreas que refletem mais intensamente o ultrassom;
- útero com formato globular, mais arredondado;
- espessamento assimétrico das paredes uterinas;
- alterações na chamada zona juncional, região de transição entre o endométrio e o miométrio.
Esses termos descrevem aspectos da imagem; não constituem, isoladamente, uma explicação completa para sintomas nem devem ser convertidos em uma conclusão individual fora do contexto clínico. A aparência pode variar conforme o equipamento, a experiência do examinador, a fase do ciclo, a idade e a coexistência de miomas ou endometriose.
Além disso, a identificação por imagem e a definição histopatológica não são completamente intercambiáveis. Um exame de imagem pode sugerir adenomiose sem que exista confirmação por análise microscópica. Por outro lado, o consenso internacional de anatomia patológica publicado em 2025 se concentra principalmente na padronização de critérios em espécimes de histerectomia, não devendo ser interpretado como exigência de cirurgia para toda avaliação clínica ou por imagem.
Uma imagem sem alterações típicas também não deve ser apresentada como garantia de ausência absoluta da condição. A interpretação depende do método, da qualidade técnica, da localização das alterações e do contexto em que o exame foi realizado.
Adenomiose é um achado no exame ou uma doença?
A resposta depende do contexto. A adenomiose pode ser discutida como uma condição clínica quando há correlação entre manifestações, avaliação profissional e achados compatíveis. Em outras situações, uma característica sugestiva pode aparecer sem sintomas relevantes ou sem confirmação por outro método.
Essa distinção é importante porque exames de imagem não são fotografias perfeitas de todos os processos microscópicos. Eles apresentam sinais que precisam ser interpretados em conjunto. O consenso MUSA contribuiu para padronizar a descrição ultrassonográfica, mas reconhece que diferentes características podem ter níveis distintos de confiabilidade e que há variação entre examinadores e circunstâncias técnicas.
A confirmação histológica pode oferecer outro tipo de informação, mas geralmente está associada à análise de tecido obtido em procedimento cirúrgico. O consenso de 2025 propõe critérios para tornar essa análise mais uniforme, incluindo descrições de adenomiose focal, extensa, superficial e profunda. Esses critérios são úteis para a anatomia patológica, mas não devem ser usados para transformar toda suspeita por imagem em diagnóstico confirmado.
Existe relação entre adenomiose, fertilidade e gravidez?
A relação entre adenomiose e reprodução é estudada, mas não permite previsões individuais simples. A presença de adenomiose não equivale automaticamente a infertilidade, assim como um achado em exame não determina sozinho a possibilidade ou a impossibilidade de uma gravidez.
A avaliação reprodutiva pode envolver diversos fatores, como idade, ovulação, trompas, espermatozoides, anatomia uterina, histórico clínico e outras condições ginecológicas. Quando há endometriose ovariana associada, exames como hormônio antimülleriano (AMH) e contagem de folículos antrais podem aparecer na investigação da reserva ovariana. Esses marcadores estimam principalmente a quantidade folicular; não medem isoladamente a qualidade dos óvulos, a fertilidade espontânea ou a chance de gravidez.
Por essa razão, não é adequado interpretar a adenomiose, um exame de reserva ovariana ou qualquer outro achado isolado como uma previsão do futuro reprodutivo de uma pessoa.
Como o diagnóstico é contextualizado?
A avaliação costuma considerar a história clínica, o exame físico quando indicado e métodos de imagem. A escolha e a interpretação desses recursos dependem da hipótese clínica, dos sintomas, de condições coexistentes e da experiência do serviço.
É útil diferenciar uma ultrassonografia transvaginal de rotina de uma ultrassonografia transvaginal especializada. Esta última pode envolver protocolo específico, avaliação sistemática, descrição padronizada e, conforme o objetivo do exame, manobras dinâmicas. Isso não significa que todo exame especializado produza o mesmo resultado ou que uma imagem substitua a avaliação profissional.
A laparoscopia é uma cirurgia realizada com câmera e instrumentos inseridos por pequenas incisões. Embora possa permitir observar e tratar algumas alterações pélvicas em situações selecionadas, não deve ser apresentada como exame inicial obrigatório para toda pessoa com suspeita de doença ginecológica. O papel da laparoscopia puramente diagnóstica mudou com a evolução da avaliação clínica e por imagem.
Exames de sangue também não oferecem uma confirmação simples da adenomiose. No contexto da endometriose, por exemplo, o CA-125 pode estar elevado em parte das pessoas, mas um resultado normal não exclui a doença e um resultado elevado não a confirma isoladamente. Esse princípio ilustra por que biomarcadores não devem ser tratados como respostas definitivas sem validação e correlação clínica.
O que a literatura ainda não esclarece completamente?
Embora a adenomiose seja reconhecida e cada vez mais descrita por critérios de imagem, existem limitações importantes:
- os achados ultrassonográficos podem variar conforme técnica, equipamento, examinador, idade e fase do ciclo;
- sinais por imagem e critérios histopatológicos não são perfeitamente equivalentes;
- a relação entre a aparência ou a extensão da alteração e a intensidade dos sintomas não é linear;
- adenomiose, miomas e endometriose podem coexistir, dificultando a atribuição de uma manifestação a uma única condição;
- classificações e termos técnicos ainda podem variar entre estudos e serviços.
Essas incertezas não tornam os exames inúteis. Elas indicam que seus resultados precisam ser comunicados com precisão, evitando tanto o alarmismo quanto a falsa segurança.
Em resumo
Adenomiose significa a presença de tecido semelhante ao endométrio no miométrio, a camada muscular do útero. É diferente da endometriose, embora as duas condições possam compartilhar sintomas e coexistir.
A ultrassonografia pode mostrar sinais sugestivos, como cistos miometriais, útero globular, espessamento assimétrico e alterações da zona juncional. Esses achados dependem da técnica e não equivalem automaticamente a uma confirmação histológica. A interpretação deve considerar o conjunto da avaliação, e não uma imagem ou sintoma isolado.
Conhecer a definição ajuda a compreender laudos e conversas com profissionais de saúde, mas não permite concluir a causa de uma dor, sangramento ou alteração uterina sem avaliação individualizada.