Início › Gravidez e pós-parto › Endometriose e possibilidade de engravidar
Gravidez e pós-parto · conteúdo informativo

Endometriose e possibilidade de engravidar

A endometriose pode estar associada à subfertilidade, mas não significa impossibilidade de engravidar. A perspectiva reprodutiva e o acompanhamento da gestação dependem de vários fatores, e os riscos descritos na literatura são populacionais, não previsões para cada pessoa.

Limite deste conteúdo: Este conteúdo é exclusivamente informativo e educacional. Não substitui consulta, avaliação individual, diagnóstico ou tratamento realizado por profissional habilitado. O texto não estima chances individuais de gravidez nem indica condutas reprodutivas ou obstétricas. Decisões desse tipo exigem avaliação por profissionais habilitados.

A endometriose pode dificultar a obtenção de uma gestação em parte das pessoas, mas o diagnóstico não significa que engravidar seja impossível. Muitas variáveis participam dessa avaliação: idade, reserva ovariana — uma estimativa da quantidade de folículos disponíveis nos ovários —, anatomia da pelve, funcionamento das tubas uterinas, fatores relacionados ao espermatozoide, extensão e localização da doença, tratamentos anteriores e tempo de tentativa de gravidez.

Também é importante separar duas perguntas diferentes: a possibilidade de engravidar e a evolução da gestação depois que ela ocorre. A endometriose pode estar associada à subfertilidade e, em estudos populacionais, a alguns desfechos obstétricos menos frequentes. Essas associações não permitem concluir que uma pessoa específica terá dificuldade para engravidar ou desenvolverá uma complicação.

Por que a endometriose pode se relacionar à fertilidade?

A endometriose é uma condição inflamatória crônica na qual tecido semelhante ao endométrio — o revestimento interno do útero — é encontrado fora da cavidade uterina. A doença pode envolver o peritônio, os ovários, as tubas uterinas ou outras estruturas da pelve, com intensidade e distribuição variadas.

A relação com a fertilidade provavelmente não depende de um único mecanismo. Alterações anatômicas, aderências, inflamação pélvica, endometriomas — cistos ovarianos associados à endometriose — e possíveis efeitos sobre a função ovariana e tubária são alguns dos fatores estudados. Entretanto, mecanismos propostos não devem ser interpretados como explicações comprovadas e iguais para todas as pessoas.

A presença de endometriose também pode coexistir com outros fatores que influenciam a fertilidade. Por isso, estatísticas de grupos não devem ser transformadas em uma probabilidade individual. A FEBRASGO menciona que a infertilidade pode ocorrer em uma parcela relevante das mulheres com endometriose, mas essa proporção varia conforme a população estudada, a definição utilizada e as características clínicas avaliadas.

O que costuma ser considerado na avaliação reprodutiva?

O planejamento reprodutivo relacionado à endometriose é individualizado. Em termos gerais, a avaliação pode considerar:

  • idade e tempo de tentativa de gravidez;
  • reserva ovariana e características dos ovários;
  • permeabilidade e anatomia das tubas uterinas;
  • presença, localização e extensão das lesões;
  • histórico de cirurgias pélvicas ou ovarianas;
  • fatores relacionados ao sêmen e à saúde reprodutiva do casal;
  • sintomas, tratamentos anteriores e objetivos reprodutivos;
  • possibilidade e pertinência de técnicas de reprodução assistida.

A existência de um endometrioma ou de uma cirurgia anterior não determina, por si só, a necessidade de uma conduta específica. Procedimentos ovarianos podem ter efeitos diferentes conforme a técnica, a extensão da doença, o tecido preservado e o histórico individual. Revisões sistemáticas destacam que decisões sobre cirurgia antes de uma tentativa de gravidez precisam equilibrar sintomas, anatomia, possíveis benefícios e o impacto potencial sobre a reserva ovariana.

O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde ressalta que o tratamento deve levar em conta, entre outros aspectos, o desejo de gravidez. Medicamentos hormonais usados para controlar sintomas da endometriose não são tratamentos para aumentar a chance de gravidez e, em geral, não são compatíveis com a tentativa de gestação ou com a própria gestação. Qualquer decisão sobre medicamentos deve ser feita com o profissional responsável, especialmente durante gravidez e amamentação.

Para uma explicação específica sobre sintomas, exames e opções terapêuticas, consulte também os conteúdos O que é endometriose e Tratamento da endometriose.

A endometriose impede a gravidez?

Não. A endometriose pode estar associada à subfertilidade, mas não equivale a esterilidade. A chance de uma gestação pode variar amplamente entre pessoas com a mesma classificação da doença, e a extensão das lesões não resume toda a perspectiva reprodutiva.

Além disso, a concepção pode ocorrer espontaneamente ou com apoio de técnicas de reprodução assistida, conforme a avaliação do casal e a disponibilidade dos serviços. A diretriz da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE) recomenda que o aconselhamento reprodutivo considere o conjunto de fatores clínicos, e não apenas a presença ou o estágio da endometriose.

Não existe uma idade, um tempo de espera ou uma estratégia reprodutiva universalmente adequada para todas as pessoas com a doença. Essa decisão depende de circunstâncias clínicas e pessoais que não podem ser definidas por um texto geral.

O que se sabe sobre a gestação em pessoas com endometriose?

Depois da concepção, estudos observacionais e revisões sistemáticas descrevem associação entre endometriose e maior frequência de alguns desfechos obstétricos, em comparação com grupos sem o diagnóstico. Entre os eventos investigados estão:

  • parto prematuro, definido como o nascimento antes de 37 semanas completas;
  • placenta prévia, situação em que a placenta se localiza próxima ou sobre a abertura interna do colo do útero;
  • hipertensão gestacional e pré-eclâmpsia, que envolvem elevação da pressão arterial e, no caso da pré-eclâmpsia, possíveis sinais de comprometimento de órgãos;
  • cesárea;
  • ruptura prematura das membranas;
  • alguns desfechos relacionados ao crescimento fetal e neonatal.

Essas associações são observadas em grupos e não significam que toda gestante com endometriose terá uma complicação. Também não há base para afirmar que a doença, isoladamente, transforme automaticamente toda gestação em uma gestação de alto risco ou determine um esquema específico de pré-natal.

A interpretação é especialmente complexa porque muitos estudos não conseguem separar completamente o efeito da endometriose de outros fatores. Adenomiose, idade, infertilidade, reprodução assistida, cesáreas anteriores, características da população e diferenças na confirmação do diagnóstico podem influenciar os resultados. Uma revisão de 2024 enfatizou justamente a necessidade de distinguir, sempre que possível, os efeitos da endometriose, da adenomiose e de fatores relacionados à reprodução assistida.

Como a maior parte da evidência é observacional, ela identifica associação, mas não prova que a endometriose seja a causa direta de cada desfecho. Além disso, as pesquisas apresentam definições e métodos diferentes. Por esse motivo, não é adequado converter razões de risco ou medidas semelhantes em uma porcentagem individual sem contexto clínico. Para vários eventos, a literatura ainda não oferece estimativas absolutas confiáveis aplicáveis a todas as gestantes.

Placenta prévia e outras alterações placentárias

A associação entre endometriose e placenta prévia é uma das mais consistentes nas revisões disponíveis. Ainda assim, o risco observado em estudos pode ser influenciado por fatores concomitantes, como adenomiose, reprodução assistida e cirurgias uterinas anteriores.

Também existe interesse científico na possível relação com o espectro da placenta acreta, termo que reúne alterações em que a placenta adere de maneira anormalmente profunda à parede uterina. Essa associação permanece baseada principalmente em estudos observacionais e em um número limitado de análises ajustadas. Placenta prévia e cesáreas anteriores, por exemplo, também são fatores relevantes para esse espectro e precisam ser considerados na interpretação.

Essas informações não significam que uma pessoa com endometriose terá alteração placentária. O acompanhamento obstétrico é que permite avaliar a localização da placenta e outros aspectos da gestação conforme a situação clínica.

A endometriose aumenta a possibilidade de gravidez ectópica?

Meta-análises descrevem uma possível associação entre endometriose e gravidez ectópica, quando a implantação ocorre fora da cavidade uterina, frequentemente em uma tuba uterina. No entanto, os estudos são heterogêneos e não permitem calcular o risco individual de uma pessoa sem avaliação clínica.

Durante uma gestação, dor pélvica ou abdominal, sangramento vaginal, tontura intensa, desmaio ou piora rápida do estado geral podem exigir avaliação profissional imediata. Esses sinais têm várias causas possíveis e não devem ser automaticamente atribuídos à endometriose. Em situações de sintomas intensos ou súbitos, a procura por um serviço de urgência pode ser necessária.

A gravidez cura a endometriose?

Não há evidência de que a gravidez cure definitivamente a endometriose. Algumas pessoas relatam redução temporária de dor ou de outros sintomas durante a gestação, enquanto outras permanecem sintomáticas. Lesões e endometriomas podem persistir ou apresentar mudanças estruturais durante esse período.

Uma dessas mudanças é a decidualização, transformação de tecidos sob influência hormonal semelhante à que ocorre no endométrio durante a gestação. Em um endometrioma ou em outra lesão, esse processo pode modificar a aparência nos exames de imagem e dificultar a interpretação. Uma alteração ultrassonográfica não deve ser considerada automaticamente sinal de câncer, mas achados atípicos ou dúvidas diagnósticas requerem avaliação especializada.

Depois do parto, os sintomas podem permanecer ausentes por algum tempo, retornar ou continuar presentes. A literatura também descreve possível redução de algumas dores em parte das mulheres que amamentam, especialmente enquanto ocorre amenorreia — ausência de menstruação —, mas os dados são observacionais e não comprovam um efeito universal ou um tratamento da endometriose.

A via de parto é definida pela endometriose?

A presença de endometriose, sozinha, não determina parto vaginal nem cesárea. Embora algumas pesquisas encontrem maior frequência de cesárea entre pessoas com a doença, esse resultado pode refletir indicações obstétricas, cirurgias anteriores, infertilidade, reprodução assistida, localização das lesões e outros fatores.

A definição da via de parto depende do quadro obstétrico e de condições maternas, fetais e placentárias. Não há evidência suficiente para recomendar cesárea exclusivamente por causa do diagnóstico de endometriose.

Como interpretar os riscos sem alarmismo?

Uma associação estatística não é uma previsão individual. Quando um estudo relata maior frequência de parto prematuro ou placenta prévia em um grupo com endometriose, isso não informa, por si só, o que ocorrerá em uma gestação específica.

Também é importante distinguir risco relativo de risco absoluto. O risco relativo compara a frequência de um evento entre grupos; o risco absoluto corresponde à probabilidade do evento em uma população determinada. Sem a frequência basal, a qualidade do estudo e as características da população, o risco relativo pode causar uma impressão exagerada do impacto real.

As revisões disponíveis ainda apresentam heterogeneidade — diferenças importantes entre estudos — e possível confundimento, quando outro fator influencia tanto a presença da doença quanto o desfecho analisado. Assim, os resultados são úteis para orientar o conhecimento coletivo e o planejamento da assistência, mas não substituem a avaliação obstétrica individualizada.

Quando buscar avaliação profissional?

O aconselhamento reprodutivo pode ser especialmente relevante quando existe desejo de gravidez, histórico de infertilidade, cirurgia ovariana ou pélvica, endometrioma, sintomas importantes ou uso de tratamento hormonal. A avaliação pode envolver ginecologia, obstetrícia e, quando pertinente, medicina reprodutiva, de acordo com as necessidades de cada caso.

Durante a gestação, sangramento, dor intensa ou persistente, desmaio, tontura importante, febre, perda de líquido ou redução de movimentos fetais — quando esses movimentos já são esperados para a fase da gestação — são situações que podem exigir contato rápido com um serviço de saúde. A presença ou ausência de endometriose não permite interpretar esses sinais de forma isolada.

A melhor informação geral é que a endometriose pode influenciar a trajetória reprodutiva, mas não define sozinha a possibilidade de engravidar nem o desfecho da gestação. O cuidado deve considerar a pessoa, a doença, a gestação e os demais fatores obstétricos em conjunto.

Importante: Este conteúdo é exclusivamente informativo e educacional. Não substitui consulta, avaliação individual, diagnóstico ou tratamento realizado por profissional habilitado. O texto não estima chances individuais de gravidez nem indica condutas reprodutivas ou obstétricas. Decisões desse tipo exigem avaliação por profissionais habilitados. Em caso de dúvida sobre sintomas, exames, medicamentos, alimentação, tratamento ou qualquer decisão relacionada à saúde, procure orientação de profissional habilitado.

Referências e fontes

Referências apresentadas em formato bibliográfico padronizado segundo convenções da ABNT para documentos online, com link para a fonte consultada e data de acesso.

  1. 1
    BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Endometriose. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/pcdt/e/pcdt-endometriose/view. Acesso em: 1 set. 2026.
  2. 2
    WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Endometriosis: fact sheet. 2023. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/endometriosis. Acesso em: 1 set. 2026.
  3. 3
    EUROPEAN SOCIETY OF HUMAN REPRODUCTION AND EMBRYOLOGY (ESHRE). ESHRE guideline: endometriosis. 2022. Disponível em: https://www.eshre.eu/Guidelines-and-Legal/Guidelines/Endometriosis-guideline.aspx. Acesso em: 1 set. 2026.
  4. 4
    Human Reproduction. Endometriosis and adverse maternal, fetal and neonatal outcomes: a systematic review and meta-analysis. 2018. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30239732/. Acesso em: 1 set. 2026.
  5. 5
    Journal of Clinical Medicine. Endometriosis and Risk of Adverse Pregnancy Outcome: A Systematic Review and Meta-Analysis. 2021. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7916165/. Acesso em: 1 set. 2026.
  6. 6
    Journal of Minimally Invasive Gynecology. Endometriosis and ectopic pregnancy: a meta-analysis. 2020. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31546066/. Acesso em: 1 set. 2026.
  7. 7
    Human Reproduction Update. The effect of pregnancy on endometriosis—facts or fiction?. 2018. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29471493/. Acesso em: 1 set. 2026.
  8. 8
    INTERNATIONAL JOURNAL OF ENVIRONMENTAL RESEARCH AND PUBLIC HEALTH. Placenta Accreta Spectrum Disorder Complicated with Endometriosis: Systematic Review and Meta-Analysis. 2022. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8962380/. Acesso em: 1 set. 2026.
  9. 9
    Human Reproduction Update. Untangling the independent effect of endometriosis, adenomyosis, and ART-related factors on maternal, placental, fetal, and neonatal adverse outcomes. 2024. Disponível em: https://academic.oup.com/humupd/article/30/6/751/7720561. Acesso em: 1 set. 2026.
  10. 10
    American Journal of Obstetrics & Gynecology MFM. Endometriosis and the risk of placenta previa and postpartum hemorrhage: a systematic review and meta-analysis. 2021. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34098177/. Acesso em: 1 set. 2026.
  11. 11
    FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA (FEBRASGO). Marco amarelo 30 a 50 das mulheres com a endometriose podem apresentar infertilidade. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br/noticia/marco-amarelo-30-a-50-das-mulheres-com-a-endometriose-podem-apresentar-infertilidade/. Acesso em: 1 set. 2026.