A pesquisa sobre novos exames para endometriose avançou em várias frentes, especialmente na busca por métodos menos invasivos do que procedimentos cirúrgicos. Entre as linhas estudadas estão biomarcadores no sangue, urina, muco cervical e sangue menstrual; alterações genéticas e epigenéticas; análise da microbiota; inteligência artificial aplicada a imagens; e combinações de diferentes dados biológicos.
Isso não significa que já exista um exame experimental pronto para uso rotineiro. Até 1º de setembro de 2026, as evidências disponíveis ainda não sustentam um biomarcador único capaz de confirmar ou excluir universalmente a endometriose. A diretriz da ESHRE recomenda que biomarcadores em tecido endometrial, sangue, sangue menstrual ou fluidos uterinos não sejam usados para diagnosticar a doença na prática clínica, enquanto estudos maiores e com validação independente continuam sendo necessários. (eshre.eu)
Por que novos exames estão sendo pesquisados?
A endometriose é uma doença inflamatória crônica e multifatorial. Seus sintomas podem variar conforme a localização e o tipo de lesão, e a intensidade dos sintomas nem sempre corresponde à extensão observada nos exames. Além disso, algumas formas, especialmente lesões superficiais, podem ser mais difíceis de identificar por métodos de imagem.
Atualmente, a investigação pode envolver história clínica, exame físico, ultrassonografia — em alguns contextos, realizada por equipe especializada — e ressonância magnética. A cirurgia não é necessariamente um requisito universal antes da avaliação e do cuidado, mas pode fazer parte da investigação ou do tratamento em situações específicas. A escolha dos métodos depende do contexto clínico e dos recursos disponíveis. (who.int)
A Organização Mundial da Saúde reconhece a necessidade de métodos diagnósticos não invasivos e descreve que estão sendo estudados exames de sangue, saliva e sangue menstrual. A menção a essas tecnologias indica uma área de pesquisa, não uma recomendação para autodiagnóstico ou uma confirmação de que esses testes estejam validados para uso geral. (who.int)
O que é um biomarcador?
Biomarcador é uma característica biológica mensurável que pode refletir um processo normal, uma doença ou uma resposta a determinada intervenção. Em endometriose, um biomarcador poderia, em teoria, ser uma proteína, um fragmento de material genético, uma célula, um metabólito ou uma combinação de sinais detectados em uma amostra.
Para se transformar em um exame clinicamente útil, um candidato a biomarcador precisa superar várias etapas. É necessário demonstrar que ele pode ser medido de forma reprodutível, que diferencia adequadamente pessoas com e sem a doença em populações variadas, que mantém desempenho fora do centro de pesquisa e que acrescenta informação relevante à avaliação já existente.
Um resultado positivo em uma coorte pequena não demonstra, sozinho, que o teste funcionará na atenção primária ou em pessoas com sintomas diversos. Da mesma forma, uma sensibilidade ou especificidade elevada em uma base retrospectiva pode não se repetir em estudos prospectivos, multicêntricos e com participantes não selecionados.
Uma revisão sistemática sobre biomarcadores candidatos avaliados em diferentes tecidos destacou a heterogeneidade dos estudos e a dificuldade de reproduzir os resultados entre coortes. Os achados variaram conforme o fenótipo, o estágio da doença, a fase do ciclo menstrual, tratamentos prévios e critérios usados para estabelecer o diagnóstico. (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov)
Exames moleculares: proteínas, RNA e outras assinaturas biológicas
Proteômica
A proteômica é o estudo amplo das proteínas presentes em uma amostra. Pesquisadores avaliam se determinados conjuntos de proteínas aparecem em concentrações diferentes em pessoas com endometriose e em grupos de comparação.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2024 reuniu estudos que investigaram proteínas no sangue, urina, plasma, muco cervical e sangue menstrual. Foram identificadas diversas proteínas candidatas e possíveis redes moleculares relacionadas à inflamação, à interação entre células e à matriz extracelular. Entretanto, os estudos incluídos eram observacionais e apresentavam diferenças importantes entre amostras, métodos laboratoriais e populações. Por isso, os achados são mais bem interpretados como sinais para pesquisa do que como exames disponíveis. (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov)
microRNAs e outros RNAs não codificantes
MicroRNAs são pequenas moléculas de RNA que podem influenciar a atividade de outros genes. Como podem ser detectados em fluidos corporais, despertam interesse como possíveis marcadores não invasivos.
Revisões recentes descrevem resultados promissores, mas também ressaltam diferenças entre estudos, dificuldade de replicação e necessidade de validação externa. Uma assinatura molecular que funciona em uma população pode perder desempenho quando aplicada a pessoas de outras idades, origens ancestrais, fenótipos ou estágios da doença. (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov)
Citocinas e mediadores inflamatórios
Citocinas são proteínas envolvidas na comunicação entre células do sistema imune. Como a inflamação participa do microambiente da endometriose, mediadores como interleucinas vêm sendo estudados como possíveis componentes de painéis diagnósticos.
Uma revisão e meta-análise encontrou diferenças nos níveis séricos de algumas interleucinas entre grupos com e sem endometriose. Isso contribui para a compreensão da biologia da doença, mas não estabelece que uma interleucina isolada tenha capacidade suficiente para diagnosticar a condição. Marcadores inflamatórios também podem variar em outras doenças e situações clínicas, o que dificulta seu uso como teste específico. (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov)
Genética e epigenética: o que pode ser medido?
Genética
Estudos de associação genômica ampla, conhecidos pela sigla GWAS, analisam muitas regiões do material genético para identificar variantes mais frequentes em determinados grupos. Pesquisas de larga escala encontraram regiões genéticas associadas à suscetibilidade à endometriose e observaram relações parcialmente compartilhadas com condições dolorosas e inflamatórias.
Essas associações indicam que a genética pode contribuir para o risco populacional, mas não funcionam como uma explicação determinística para uma pessoa específica. Os resultados atuais não permitem usar um teste genético para confirmar ou excluir endometriose, prever com segurança sua evolução ou estabelecer individualmente a gravidade da doença. A representatividade ancestral das coortes e a proporção limitada da variação explicada também restringem a aplicação clínica imediata. (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov)
Epigenética
Epigenética é o estudo de alterações que regulam a atividade dos genes sem modificar necessariamente a sequência do DNA. Entre os mecanismos pesquisados estão a metilação do DNA, modificações de histonas e RNAs não codificantes.
Revisões sistemáticas encontraram associações entre alterações de metilação e genes relacionados à proliferação celular, resposta hormonal, apoptose — processo de morte celular programada — imunidade e adesão entre células. Esses achados podem ajudar a investigar como diferentes fatores biológicos interagem na endometriose.
Ainda assim, a literatura apresenta grande diversidade de tecidos analisados, técnicas, populações e critérios diagnósticos. Uma alteração epigenética observada em uma lesão não necessariamente aparece no sangue, não prova que seja a causa primária da doença e não equivale a um exame epigenético validado. A confirmação em coortes independentes permanece uma etapa essencial. (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov)
Microbiota: uma possível fonte de sinais, não uma explicação definitiva
A microbiota é o conjunto de microrganismos que vive em determinado ambiente do corpo. Estudos investigam a microbiota intestinal, vaginal, cervical, uterina, peritoneal e a encontrada em tecidos ou líquidos relacionados às lesões.
Uma meta-análise de 2025 observou diferenças em alguns índices de diversidade da microbiota intestinal entre grupos com e sem endometriose. No entanto, revisões também descrevem heterogeneidade relevante entre estudos e fatores de confusão, como alimentação, uso de medicamentos ou antibióticos, localização geográfica, idade e sintomas intestinais.
Além disso, uma associação entre microbiota e endometriose não demonstra que alterações microbianas causem a doença. Também não sustenta, por si só, o uso de probióticos, antibióticos, dietas específicas ou outras intervenções microbiômicas como tratamentos comprovados. O campo ainda precisa de protocolos padronizados, melhor controle de variáveis e estudos que avaliem se os achados predizem desfechos clinicamente importantes. (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov)
Inteligência artificial aplicada à ultrassonografia e à ressonância
A inteligência artificial pode ser usada para identificar padrões em imagens que são difíceis de medir manualmente. Em endometriose, os modelos estudados analisam principalmente imagens de ultrassonografia e, em menor escala, combinações de exames ou informações clínicas.
Uma revisão sistemática publicada em 2026 encontrou poucos estudos sobre inteligência artificial aplicada a imagens ultrassonográficas para diagnóstico ou previsão de endometriose. Os resultados foram promissores, mas os próprios autores destacaram a necessidade de validação em cenários reais. Bases retrospectivas e relativamente selecionadas podem produzir métricas de desempenho superiores às observadas na prática cotidiana. (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov)
Outra meta-análise recente avaliou modelos de inteligência artificial para endometriomas ovarianos e comparou seu desempenho com o de leitores humanos. Embora os modelos tenham apresentado resultados iniciais favoráveis, a conclusão foi de que se trata de uma possibilidade promissora, porém preliminar, que poderia funcionar como ferramenta auxiliar. Isso não significa que a tecnologia substitua profissionais, protocolos de imagem ou avaliação clínica especializada. (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov)
Para que um sistema de inteligência artificial seja incorporado, ainda é necessário avaliar:
- desempenho em diferentes equipamentos e serviços;
- qualidade e diversidade das imagens usadas no treinamento;
- validação externa em outras populações;
- capacidade de reconhecer diferentes fenótipos da doença;
- influência da experiência do examinador;
- interpretabilidade dos resultados;
- possíveis erros, vieses e consequências clínicas;
- benefício adicional em comparação com a avaliação já disponível.
Um modelo pode identificar padrões estatísticos sem explicar a origem deles. Por isso, acurácia não deve ser confundida automaticamente com benefício para as pessoas ou melhoria comprovada do cuidado.
Como diferenciar pesquisa, exame experimental e exame disponível?
A expressão “novo exame” pode designar tecnologias em etapas muito diferentes. Uma forma mais segura de interpretar notícias e anúncios é verificar em que estágio a proposta se encontra:
- Pesquisa pré-clínica: investigação em células, tecidos, modelos computacionais ou animais. Não demonstra eficácia em seres humanos.
- Estudo observacional ou piloto: avaliação inicial de associação, viabilidade ou desempenho em um grupo limitado.
- Validação clínica: análise em uma população independente, idealmente representativa do cenário em que o teste será usado.
- Estudo prospectivo ou multicêntrico: acompanhamento planejado em diferentes locais e com critérios previamente definidos.
- Avaliação regulatória: análise por autoridades competentes quanto à finalidade, qualidade, segurança e desempenho do produto.
- Incorporação ao sistema de saúde: decisão baseada em evidências, avaliação de tecnologias, impacto orçamentário e critérios institucionais, como os adotados pela CONITEC no SUS.
A presença de um estudo no ClinicalTrials.gov mostra que existe um registro de pesquisa, mas não comprova eficácia, segurança, aprovação ou disponibilidade. É importante verificar o desenho do estudo, o número de participantes, os desfechos, a situação de recrutamento, a existência de resultados publicados e o histórico de atualizações do registro. (gov.br)
No Brasil, o PCDT vigente e as decisões da CONITEC são referências centrais para identificar o que está recomendado ou disponibilizado no SUS. Em 20 de agosto de 2026, a página oficial da CONITEC indicava alteração no anexo relacionado ao PCDT de endometriose. Documentos preliminares, consultas públicas e propostas de atualização não devem ser apresentados como se fossem recomendações definitivas. (gov.br)
O que ainda falta para um novo exame chegar à prática?
Um teste útil precisa responder a uma necessidade real e produzir informação que mude o cuidado de maneira relevante. Não basta detectar uma diferença estatística entre grupos. Também é necessário saber se o resultado melhora o tempo até a avaliação adequada, reduz procedimentos desnecessários, identifica melhor determinados fenótipos ou ajuda a acompanhar desfechos importantes.
Entre as limitações recorrentes da literatura estão amostras pequenas, estudos de caso-controle, seleção de participantes já encaminhados a serviços especializados, diferenças nos critérios de diagnóstico, ausência de validação externa, múltiplas análises e controle insuficiente de fatores de confusão.
A diretriz da ESHRE recomenda estudos prospectivos, multicêntricos e com amostras independentes de validação para investigar o possível benefício de biomarcadores. Essa recomendação ajuda a explicar por que um resultado de laboratório publicado em uma pesquisa não deve ser convertido diretamente em promessa de exame acessível ou em orientação de saúde. (eshre.eu)
O que a pessoa leitora pode concluir?
A pesquisa é necessária e pode, no futuro, ampliar as opções de investigação da endometriose. Biomarcadores, inteligência artificial e abordagens que integram dados clínicos, imagens e informações moleculares são áreas relevantes, mas permanecem em diferentes estágios de desenvolvimento.
Até que haja validação robusta, aprovação e eventual incorporação, resultados experimentais devem ser entendidos como evidência em construção. Nenhum teste de sangue, urina, saliva, sangue menstrual, genética, epigenética ou microbiota deve ser tratado como substituto universal da avaliação profissional e dos métodos de imagem quando indicados.
A literatura também não sustenta a ideia de que um único mecanismo — genético, hormonal, imunológico, epigenético ou microbiano — explique todos os casos. A endometriose provavelmente envolve interações complexas entre diferentes processos biológicos, e a ciência ainda busca entender como essas camadas se relacionam com sintomas, localização das lesões e resposta ao cuidado. (who.int)
Diante de sintomas persistentes, intensos, recorrentes ou que afetem a vida cotidiana, a avaliação por profissional de saúde habilitado pode ser necessária. Sinais de piora súbita, dor intensa inesperada, desmaio, sangramento importante, febre ou outros sintomas agudos também merecem avaliação profissional, sem que isso permita concluir a causa apenas pela descrição na internet.