A endometriose nos ligamentos uterossacros corresponde à presença de tecido semelhante ao endométrio — o tecido que reveste internamente o útero — em uma região posterior da pelve. Esses ligamentos fazem parte das estruturas de sustentação do útero e se estendem da região do colo uterino em direção ao sacro, um osso localizado na parte posterior da pelve.
Essa localização é geralmente descrita no contexto da endometriose profunda, uma apresentação clínico-anatômica na qual as lesões podem atingir maior profundidade nos tecidos e envolver estruturas do compartimento posterior da pelve. A classificação em endometriose superficial, ovariana e profunda é útil para fins didáticos, mas não representa, sozinha, a intensidade dos sintomas, o prognóstico ou a necessidade de tratamento.
Onde ficam os ligamentos uterossacros?
Os ligamentos uterossacros são estruturas pares situadas atrás do útero. Eles participam da sustentação do colo uterino e da conexão entre o útero e a parede posterior da pelve. Anatomicamente, ficam próximos de outras áreas que também podem ser envolvidas pela endometriose profunda, como a região retrocervical — localizada atrás do colo uterino —, o fundo de saco posterior, a vagina e segmentos do intestino, especialmente o reto e o sigmoide.
A proximidade entre essas estruturas ajuda a explicar por que uma lesão descrita nos ligamentos uterossacros pode aparecer associada a alterações em regiões vizinhas. Isso não significa que o comprometimento de uma área determine necessariamente doença em outra. A descrição precisa depende da avaliação clínica e, quando indicada no contexto assistencial, de métodos de imagem capazes de mapear localização, profundidade, extensão e relação com órgãos próximos.
A ultrassonografia transvaginal especializada e a ressonância magnética podem contribuir para a avaliação da endometriose profunda. O desempenho desses exames varia conforme o protocolo, o equipamento, a experiência dos profissionais e as características da doença. Um resultado sem alterações visíveis não exclui completamente lesões superficiais, pequenas ou de difícil identificação.
Por que essa localização é considerada endometriose profunda?
O termo “profunda” descreve principalmente uma relação anatômica: lesões que se estendem para além da superfície do peritônio e atingem tecidos da pelve. O peritônio é uma membrana que reveste parte da cavidade abdominal e pélvica. A profundidade histórica usada em classificações não deve ser entendida como uma fronteira biológica absoluta nem substituir a descrição detalhada da anatomia.
Nos ligamentos uterossacros, a doença pode ser descrita como uma lesão isolada ou como parte de um conjunto de alterações no compartimento posterior. Também pode haver aderências, que são faixas de tecido cicatricial capazes de aproximar ou fixar estruturas que normalmente teriam alguma mobilidade.
A endometriose profunda pode envolver os ligamentos uterossacros com diferentes extensões. Em algumas pessoas, as alterações anatômicas são pequenas; em outras, podem alcançar estruturas vizinhas. A extensão observada em exames ou durante um procedimento não permite prever, por si só, a intensidade da dor, o impacto na fertilidade ou a evolução individual. Estudos e consensos destacam que localização anatômica e manifestações clínicas nem sempre apresentam relação proporcional.
Quais manifestações podem estar associadas?
A literatura descreve diversas manifestações possíveis quando há endometriose profunda no compartimento posterior da pelve. Entre elas estão:
- dor pélvica persistente ou recorrente;
- cólicas menstruais intensas ou progressivamente mais difíceis de controlar;
- dor profunda durante ou após a relação sexual;
- dor na região lombar ou sacral, em algumas situações;
- sintomas intestinais que podem apresentar relação temporal com a menstruação, como dor para evacuar, desconforto retal, alteração do hábito intestinal ou dor durante a evacuação;
- sensação de pressão ou peso na pelve;
- dificuldade para engravidar, em parte das pessoas com endometriose, embora a relação entre uma localização específica e a fertilidade individual não possa ser presumida.
Essas manifestações não são exclusivas da endometriose nos ligamentos uterossacros. Dor pélvica, dor na relação sexual, alterações intestinais e cólicas podem ocorrer em diferentes condições ginecológicas, gastrointestinais, urinárias, musculoesqueléticas ou neurológicas. Por isso, nenhum sintoma isolado — inclusive uma dor localizada na parte posterior da pelve — confirma a presença de endometriose nessa região.
A ausência de sintomas também não exclui a possibilidade de endometriose. A Organização Mundial da Saúde observa que a doença pode ter manifestações muito variadas e, em algumas pessoas, ser identificada sem sintomas importantes. Da mesma forma, uma doença extensa não necessariamente causa dor intensa, enquanto lesões aparentemente limitadas podem estar associadas a grande impacto na qualidade de vida.
A dor nos ligamentos uterossacros permite localizar a doença?
Não. A percepção da dor pélvica não corresponde de maneira precisa ao ponto anatômico em que uma lesão eventualmente esteja localizada. A pelve reúne órgãos, músculos, nervos, ligamentos e tecidos que compartilham vias de sensibilidade. Além disso, inflamação, aderências, contração muscular e sensibilização do sistema nervoso podem influenciar a experiência dolorosa.
Por esse motivo, a dor lombar, sacral, vaginal, retal ou durante a relação sexual pode estar associada a diferentes causas. O padrão cíclico pode ser uma informação relevante para a avaliação profissional, mas também não é suficiente para estabelecer um diagnóstico. A intensidade, a duração e a localização descritas pela pessoa são elementos da história clínica, não um substituto para uma avaliação completa.
Relação com sintomas intestinais e urinários
Os ligamentos uterossacros ficam próximos de estruturas do compartimento posterior e de trajetos pélvicos importantes. Quando a endometriose profunda também envolve o intestino, podem aparecer sintomas como dor para evacuar, desconforto retal ou mudanças do funcionamento intestinal, às vezes com variação ao longo do ciclo menstrual. Isso não significa que toda manifestação intestinal em pessoas com suspeita de endometriose decorra de uma lesão intestinal.
Os sintomas urinários são mais frequentemente discutidos quando há comprometimento da bexiga, dos ureteres ou de outras estruturas do trato urinário. A proximidade anatômica não permite concluir que uma lesão nos ligamentos uterossacros tenha atingido o sistema urinário. Quando existe suspeita de comprometimento ureteral, especialmente com sinais de obstrução, a avaliação especializada é importante porque alterações como hidroureter ou hidronefrose podem ameaçar a função renal.
A presença de sangue nas fezes ou na urina, dificuldade importante para evacuar ou urinar, dor intensa de início recente, febre ou piora rápida do estado geral são situações que podem exigir avaliação profissional, sem que isso permita concluir a causa do quadro.
Como a localização pode ser investigada?
A avaliação costuma integrar história clínica, exame físico e exames de imagem quando considerados apropriados pela equipe responsável. Diretrizes e consensos internacionais ressaltam a importância de descrever a topografia da doença, sua profundidade, extensão, aderências e eventual relação com órgãos próximos, em vez de registrar apenas um estágio global.
A ultrassonografia transvaginal com protocolo para investigação de endometriose profunda pode examinar sistematicamente diferentes compartimentos da pelve, incluindo a região dos ligamentos uterossacros, o fundo de saco posterior, a vagina, o retossigmoide e a bexiga. A ressonância magnética também pode contribuir para o mapeamento, sobretudo quando é necessário avaliar a extensão anatômica ou complementar a ultrassonografia.
Nenhum exame deve ser interpretado isoladamente. A visibilidade de uma lesão, sua dimensão ou sua classificação não determina, por si só, a intensidade dos sintomas nem torna uma intervenção obrigatória. Do mesmo modo, exames sem alterações não afastam completamente a possibilidade de endometriose superficial ou de alterações pequenas.
Os sistemas de classificação podem ter finalidades diferentes. A classificação revisada da American Society for Reproductive Medicine, conhecida como rASRM, é amplamente utilizada para descrever determinados aspectos da extensão da doença, mas apresenta limitações na endometriose profunda. O sistema Enzian e suas versões atualizadas, incluindo classificações baseadas em imagem, procuram representar melhor a localização e o comprometimento de estruturas profundas. Esses sistemas podem ser complementares e não devem ser tratados como uma medida única de dor, infertilidade ou prognóstico individual.
Endometriose nos ligamentos uterossacros significa necessidade de cirurgia?
Não necessariamente. A presença ou a suspeita de uma lesão nessa região não estabelece, sozinha, a necessidade de cirurgia. As recomendações de sociedades científicas destacam que decisões sobre tratamento devem considerar manifestações clínicas, impacto funcional, órgãos envolvidos, desejo reprodutivo, riscos, preferências e possibilidades de acompanhamento.
Quando a doença profunda é avaliada no contexto cirúrgico, o planejamento pode exigir um mapeamento anatômico detalhado e uma equipe com experiência específica. Se houver suspeita de comprometimento intestinal, urinário ou de outras estruturas, a abordagem pode envolver profissionais de diferentes áreas. As recomendações cirúrgicas não definem uma técnica obrigatória para todos os casos; a escolha depende da anatomia, da extensão, dos sintomas, dos riscos e da experiência da equipe.
Também é importante evitar a ideia de que a cirurgia representa cura definitiva. A endometriose é uma doença crônica, e a persistência ou a recorrência podem ocorrer. Por outro lado, a existência de uma lesão não significa automaticamente que uma cirurgia seja necessária. O cuidado deve ser individualizado, conforme as diretrizes vigentes e o contexto assistencial.
Para uma explicação geral sobre investigação e opções de cuidado, consulte também Endometriose: sintomas, diagnóstico e tratamento, Endometriose profunda e Endometriose intestinal.
O que a literatura ainda não esclarece completamente?
A evidência específica sobre endometriose limitada aos ligamentos uterossacros é menor do que a disponível para alguns outros aspectos da doença. Muitos estudos reúnem diferentes localizações de endometriose profunda, usam critérios variados de classificação ou analisam pessoas encaminhadas a serviços especializados. Isso dificulta estimar a frequência exata dessa apresentação na população geral e comparar diretamente resultados entre pesquisas.
Também não há uma relação simples entre o tamanho de uma lesão, sua profundidade e a intensidade da dor. As classificações anatômicas são úteis para organizar a descrição da doença, mas não funcionam como um prognóstico individual completo. Além disso, exames de imagem dependem de técnica e experiência, e os consensos reconhecem que ainda existem diferenças entre sistemas de classificação.
Assim, a expressão “endometriose nos ligamentos uterossacros” deve ser compreendida como uma descrição anatômica possível dentro do espectro da endometriose profunda — não como uma explicação automática para qualquer dor pélvica, intestinal, sexual ou lombar.